sábado, 21 de junho de 2014

Educando crianças seguras

Antes que eles cresçam Esses dias conversei com uma pediatra e perguntei a ela as queixas mais constantes que as mães trazem ao seu consultório. É mais ou menos assim: “meu filho não fica sozinho”; “meu filho acorda a noite inteira”; “meu filho quer dormir na cama comigo e com meu marido toda noite”; “mal consigo falar no telefone”. E na hora pensei em várias mães que conheço – e em mim mesma. Nas dezenas de vezes que liguei pra uma velha amiga que, desde que teve filho, nunca mais conseguiu falar mais que 2 minutos ao telefone. E olha que a criança já tem três anos. Pensei em meu filho me chamando seguidamente quando preciso me concentrar em alguma tarefa. Pensei nas crianças conhecidas que, aos 6 ou 7 anos, ainda não conseguem dormir sozinhas em suas caminhas. Como sempre, pensei também na minha infância, quando eu e meus primos corríamos pelo quintal sem nunca incomodar os adultos que conversavam na sala. E que eu jamais deveria bater na porta enquanto meus pais estavam no quarto – salvo emergências. Me parece que as crianças de hoje precisam muito experimentar aquela certa solidão que só temos nos primeiros anos de vida, uma solidão povoada de fantasia e sonhos acordados. Mas, para isso, pais e mães precisam acreditar que elas são capazes de sobreviver a essa solidão, uma vez que essa sobrevivência é importantíssima para o desenvolvimento emocional da criança. Ela precisa saber que, ainda que não tenha um adulto olhando para ela 24 horas, ou que não esteja no mesmo cômodo o tempo todo, ainda assim está sendo amada e cuidada. A segurança que ela carregará para a vida toda não tem a ver com presença constante, mas com a certeza de que é cuidada e amada, mesmo quando a mãe entra no banho ou faz uma pequena viagem sozinha. Perguntei ao Dr. Aranha, médico e terapeuta familiar que é colunista de nosso blog, e ele respondeu que a presença dos adultos na vida de uma criança, como todo o resto, também deve seguir um ritmo, uma respiração. Estar por perto e sair, brincar junto e ficar sozinho, dar carinho e dar espaço devem se intercalar para que desde cedo se aprenda a confiar na capacidade de ser completa e feliz sem que alguém esteja grudado a ela o tempo todo. Não é difícil imaginar como isso pode se transportar para a vida adulta gerando pessoas carentes, ciumentas, inseguras, dependentes das demonstrações de afeto constantes, sem nunca confiar que possam estar recebendo amor quando o outro – seja namorado, esposa, amiga – se dedica a outras coisas ou a outras pessoas. Mas para que as crianças desenvolvam auto confiança, os pais precisam “autorizar”, acreditando na capacidade de seu filho. E os filhos, por sua vez, precisam confiar que não irão sofrer se passarem uma hora brincando no quarto e que o fato de que a mãe está dormindo até mais tarde não tem nada a ver com abandono. Em outras palavras, essa é uma insegurança nossa, dos pais e adultos cuidadores. Pense numa criança que cresce com alguém que é pago para ficar olhando para ela 10 horas por dia sem mais nada para fazer. Talvez tenha alguma dificuldade para aprender que amor e afeto não tem a ver com observação e presença absoluta… Ou cuja mãe, que parou de trabalhar para cuidar dela (o sonho de muitas de nós!) se sente culpada quando pede para que ela durma a noite toda em seu quarto para que, assim, possa ter alguns momentos com o marido, (que muitas vezes também está carente). Ou a mãe que se sente mal porque trabalha fora e, quando está junto com o filho, abdica de absolutamente tudo para dar atenção 100%, ainda que sonhe tirar 30 minutos para tomar um café e ler o jornal. E tem também os pais que querem controlar cada minuto do filho com a babá ou na escolinha, pedindo relatórios diários ou observando pela câmera os passos da criança. Outro dia estava no salão de cabeleireiro quando ouvi um chorinho de bebê. Era uma mãe recente que conectou a babá eletrônica ao celular e assim podia controlar se a babá estava cuidando direito. Mas no final das contas isso só servia para que ela ficasse angustiada a cada choro que ouvia sem poder fazer nada! Sim, esses são exemplos extremos, mas não é difícil ver essa superproteção em nosso dia a dia. No meu e no seu. Me lembro de uma viagem que fiz apenas com meu filho e com meu namorado e em que tivemos momentos juntos, caminhando ou brincando, mas quando eles acabavam o Antonio não era capaz de desgrudar de mim para que eu terminasse uma xícara de chá ou tomasse um banho. E aí pensei que precisa fazer parte do meu papel prepará-lo para a vida, ensinar com amor e autoridade que continuo sentindo afeto e cuidando, mesmo quando fecho a porta do escritório para atender um cliente ao telefone. Outro dia uma leitora querida escreveu que estava insegura em mandar o filho para a escolinha na mesma época em que o irmãozinho iria nascer. Assim, optaria por uma escola que não era exatamente seu desejo para que esses momentos não coincidissem. E pensei, será mesmo que é prejudicial para a criança? Ou não seria perfeito para a família que a criança, já crescidinha, com 3 anos, imagino, fosse feliz para se distrair com os amiguinhos e receber carinho da professora, enquanto a mãe pudesse se dedicar um pouco mais ao bebê que acaba de nascer, esse sim necessitado de atenção quase que 24 horas? E, quando o filho voltasse, encontraria uma mãe menos cansada e ansiosa, que depois de amamentar, trocar fraldas e dar banho, aí sim teria tempo para se dedicar a ele com tranquilidade. O difícil, como sempre, é saber a medida dessa atenção. Como vivemos em uma sociedade altamente psicologizada, tentamos prever todos os danos emocionais que somos capazes de causar como pais. Se dermos pouco, a criança pode sentir-se rejeitada e desenvolver uma defesa que será difícil de derrubar mais tarde . Se dermos demais, teremos um adulto dependente de atenção constante e inseguro. Eu também não sei qual é o ideal, mas se meu filho está demandando o tempo todo a presença da mãe ou do pai e não consegue ter uns minutos sozinho, não é capaz de brincar sem companhia, penso que preciso me esforçar para mostrar a ele que tenho muito amor – por meio dos meus cuidados e carinhos – quando estou junto. Mas que também estou ali atenta caso ele precise quando não estou com ele no colo. E acho que é saudável mostrar também que tenho outros interesses além dele. Afinal, as crianças aprendem pelo exemplo e eu gostaria muito que meu filho crescesse independente, mas capaz de trocar amor e afeto com segurança. Por Fabi Corrêa

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