POR ANDREA
RANGEL
Para Edgar Morin, literatura e artes não podem ser
tratados como conhecimentos secundários - Guito Moreto
RIO - O antropólogo, sociólogo e filósofo
Edgar Morin fará uma das quatro conferências magnas do encontro internacional
Educação 360, promovido por O GLOBO e "Extra" em parceria com Sesc e
da Prefeitura do Rio, com apoio do Canal Futura. O evento acontece dias 5 e 6
de setembro, na Escola Sesc do Ensino Médio, em Jacarepaguá. Nesta entrevista,
Morin crítica o modelo ocidental de ensino e diz que o professor tem uma missão
social, por isso, segundo ele, “é preciso educar os educadores”.
Na sua opinião, como seria o modelo
ideal de educação?
A figura do professor é determinante para
a consolidação de um modelo “ideal” de educação. Através da Internet, os alunos
podem ter acesso a todo o tipo de conhecimento sem a presença de um professor.
Então eu pergunto, o que faz necessária a presença de um professor? Ele deve
ser o regente da orquestra, observar o fluxo desses conhecimentos e elucidar as
dúvidas dos alunos. Por exemplo, quando um professor passa uma lição a um
aluno, que vai buscar uma resposta na Internet, ele deve posteriormente
corrigir os erros cometidos, criticar o conteúdo pesquisado. É preciso
desenvolver o senso crítico dos alunos. O papel do professor precisa passar por
uma transformação, já que a criança não aprende apenas com os amigos, a família,
a escola. Outro ponto importante: é necessário criar meios de transmissão do
conhecimento a serviço da curiosidade dos alunos. O modelo de educação,
sobretudo, não pode ignorar a curiosidade das crianças.
Quais são os maiores problemas do
modelo de ensino atual?
O modelo de ensino que foi instituído nos
países ocidentais é aquele que separa os conhecimentos artificialmente através
das disciplinas. E não é o que vemos na natureza. No caso de animais e
vegetais, vamos notar que todos os conhecimentos são interligados. E a escola
não ensina o que é o conhecimento, ele é apenas transmitido pelos educadores, o
que é um reducionismo. O conhecimento complexo evita o erro, que é cometido,
por exemplo, quando um aluno escolhe mal a sua carreira. Por isso eu digo que a
educação precisa fornecer subsídios ao ser humano, que precisa lutar contra o
erro e a ilusão.
O senhor pode explicar melhor esse
conceito de conhecimento?
Vamos pensar em um conhecimento mais
simples, a nossa percepção visual. Eu vejo as pessoas que estão comigo, essa
visão é uma percepção da realidade, que é uma tradução de todos os estímulos
que chegam à nossa retina. Por que essa visão é uma fotografia? As pessoas que
estão longe, são pequenas, e vice-versa. E essa visão é reconstruída de forma a
reconhecermos essa alteração da realidade, já que todas as pessoas apresentam
um tamanho similar. Todo conhecimento é uma tradução, que é seguido de uma
reconstrução, e ambos os processos oferecem o risco do erro. Existe um outro
ponto vital que não é abordado pelo ensino: a compreensão humana. O grande
problema da Humanidade é que todos nós somos idênticos e diferentes, e
precisamos lidar com essas duas ideias que não são compatíveis. A crise no
ensino surge por conta da ausência dessas matérias que são importantes ao
viver. Ensinamos apenas o aluno a ser um indivíduo adaptado à sociedade, mas
ele também precisa se adaptar aos fatos e a si mesmo.
O que é a transdisciplinaridade, que
defende a unidade do conhecimento?
As disciplinas fechadas impedem a
compreensão dos problemas do mundo. A transdisciplinaridade, na minha opinião,
é o que possibilita, através das disciplinas, a transmissão de uma visão de
mundo mais complexa. O meu livro “O homem e a morte” é tipicamente transdisciplinar,
pois busco entender as diferentes reações humanas diante da morte através dos
conhecimentos da pré-história, da psicologia, da religião. Eu precisei fazer
uma viagem por todas as doenças sociais e humanas, e recorri aos saberes de
áreas do conhecimento, como psicanálise e biologia.
Como a associação entre a razão e a
afetividade pode ser aplicada no sistema educacional?
É preciso estabelecer um jogo dialético
entre razão e emoção. Descobriu-se que a razão pura não existe. Um matemático
precisa ter paixão pela matemática. Não podemos abandonar a razão, o sentimento
deve ser submetido a um controle racional. O economista, muitas das vezes, só
trabalha através do cálculo, que é um complemento cego ao sentimento humano. Ao
não levar em consideração as emoções dos seres humanos, um economista opera
apenas cálculos cegos. Essa postura explica em boa parte a crise econômica que
a Europa está vivendo atualmente.
A literatura e as artes deveriam
ocupar mais espaço no currículo das escolas? Por quê?
Para se conhecer o ser humano, é preciso
estudar áreas do conhecimento como as ciências sociais, a biologia, a
psicologia. Mas a literatura e as artes também são um meio de conhecimento. Os
romances retratam o indivíduo na sociedade, seja por meio de Balzac ou
Dostoiévski, e transmitem conhecimentos sobre sentimentos, paixões e
contradições humanas. A poesia é também importante, nos ajuda a reconhecer e a
viver a qualidade poética da vida. As grandes obras de arte, como a música de
Beethoven, desenvolvem em nós um sentimento vital, que é a emoção estética, que
nos possibilita reconhecer a beleza, a bondade e a harmonia. Literatura e artes
não podem ser tratadas no currículo escolar como conhecimento secundário.
Qual a sua opinião sobre o sistema
brasileiro de ensino?
O Brasil é um país extremamente aberto a
minhas ideias pedagógicas. Mas a revolução do seu sistema educacional vai
passar pela reforma na formação dos seus educadores. É preciso educar os
educadores. Os professores precisam sair de suas disciplinas para dialogar com
outros campos de conhecimento. E essa evolução ainda não aconteceu. O professor
possui uma missão social, e tanto a opinião pública como o cidadão precisam ter
a consciência dessa missão.

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